Farinha de trigo, açúcar e cocaína

by Pat Feldman on 06/10/2009 · 46 comments

in Alimentação, AMIGOS, ARTIGOS, Leitores do Crianças na Cozinha

Screen Shot 2015-01-26 at 11.35.58 PMEsse foi um dos melhores textos que já li nos últimos tempo, escrito por Denis Russo Burgierman. Muito verdadeiro, sem papas na língua, sem querer agradar ninguém, simplesmente um texto que mostra a realidade alimentar atual de forma real (e triste).

Quem me deu a dica do link foi Silvia. Obrigada! Eu achei o texto tão bom, que preferi reproduzi-lo aqui no Crianças na Cozinha, ao invés de simplesmente colocar um link, porque queria ter a certeza de que vocês o leriam com toda a atenção do mundo!

Aproveitem a leitura e reflitam sobre os hábitos alimentarem que querem manter e que querem passar aos seus filhos e netos.

Acompanhem a minha cozinha, totalmente isenta de industrializados e muito prática. CLIQUE AQUI JÁ!!!

Se um dia alguém resolver erigir um monumento em praça pública às boas intenções frustradas do pensamento científico, podia ser uma estátua monumental de um prato cheio de pó branco. Assim homenagearíamos de uma só vez três enganos cientificistas: a farinha de trigo refinada, o açúcar branco e a cocaína. Três pós acéticos e quase idênticos, três frutos do pensamento que dominou o último século e meio: o reducionismo científico. Três matadores de gente.

Não é por acaso que os três são tão parecidos. Todos eles são o resultado de um processo de “refino” de uma planta – trigo, cana e coca. Refino! Soa quase como ironia usar essa palavra chique para definir um processo que, em termos mais precisos, deveria chamar-se “linchamento vegetal” ou algo assim. Basicamente se submete a planta a todos os tipos de maus-tratos imagináveis: esmagamento entre dois cilindros de aço, fogo, cortes de navalha, ataques com ácido. Até que tenha-se destruído ou separado toda a planta menos a sua “essência”. No caso do trigo e a da cana, o carboidrato puro, pura energia. No caso da coca, algo bem diferente, mas que parece igual. Não a energia que move as coisas do carboidrato, mas a sensação de energia ilimitada, injetada diretamente nas células do cérebro.

Começou-se a refinar trigo, cana e coca mais ou menos na mesma época, na segunda metade do século 19, com mais intensidade por volta de 1870. No livro (que recomendo muitíssimo) “Em Defesa da Comida”, o jornalista Michael Pollan conta como a tal “cultura ocidental” adorou a novidade. Os cientistas ficaram em êxtase, porque acreditavam que o modo de compreender o universo é dividi-lo em pequenos pedacinhos e estudar um pedacinho de cada vez (esse é o tal reducionismo científico). Nada melhor para eles, então, do que estudar apenas o que importa nas plantas, e não aquele lixo inútil – fibras, minerais, vitaminas e outras sujeiras. Os capitalistas industriais também curtiram de montão. Um pó refinado é super lucrativo, muito fácil de produzir em quantidades imensas, praticamente não estraga, pode ser transportado a longuíssimas distâncias. A indústria de junk food floresceu e sua grana financiou as pesquisas dos cientistas, que, animadíssimos, queriam mais.

Sabe por que esses pós refinados não estragam? Porque praticamente não têm nutrientes. As bactérias e insetos não se interessam pelo que não tem nutriente.

Os três tem efeito parecido na gente. Eles nos jogam no céu com uma descarga de energia e, minutos depois, nos deixam despencar. Aí a gente quer mais. Como eles foram separados das partes mais duras das plantas – as fibras – nosso corpo os absorve como um ralo, de uma vez só. Seu efeito eletrificante manda sinais para o organismo inteiro, o metabolismo se acelera.  Aí o efeito vai embora de repente. E o corpo é pego no contrapé.

Cocaína, farinha e açúcar eram O Bem no final do século 19. Eram conquistas da engenhosidade humana. Eram a prova viva de que a ciência ainda iria conquistar tudo, de que o homem é maior do que a natureza, de que o progresso é inevitável e lindo. Cocaína era “o elixir da vida”. Nas palavras publicadas numa revista do século 19, “um substituto para a comida, para que as pessoas possam eventualmente passar um mês sem comer.” Farinha e açúcar davam margem a fantasias de ficção científica, como a pílula que dispensaria o humano do ato animal e inferior de comer.

O equívoco da cocaína ficou demonstrado mais cedo, já nas primeiras décadas do século 20. De medicamento patenteado pela Bayer, virou “droga”, proibida, enquanto exterminava uma população de viciados. A proibição amplificou seus males, transformando-a de algo que afeta alguns em algo que machuca o planeta inteiro, movendo a indústria do tráfico, que abastece quase todo o crime organizado e o terrorismo do globo.

Levaria muito tempo até que os outros dois comparsas fossem desmascarados. Até os anos 1990, farinha e açúcar ainda eram “O Bem”, enquanto “O Mal” era a gordura, o colesterol. Os médicos recomendavam que se substituisse gorduras por carboidratos e o mundo ocidental se entupiu de farinha e açúcar. Começou ali uma epidemia de diabetes tipo 2, causada pelas pancadas repentinas que farinhas e açúcar dão no nosso organismo. Começou também uma epidemia de obesidade. Sem falar que revelou-se que açúcar e farinha estão envolvidos no complô para expulsar frutas, folhas e legumes dos nossos pratos, o que está exterminando gente com câncer e doenças cardíacas. Como câncer e coração são as maiores causas de morte do mundo urbanizado, chega-se à constatação dolorosa: farinha e açúcar são na verdade muito mais letais do que cocaína. É que cocaína viciou poucos, mas açúcar e farinha viciaram quase todo mundo.

Agora os três pós brancos são “O Mal”. A humanidade está mobilizada para exterminá-los. Há até uma nova dieta vendendo toneladas de livros pela qual corta-se todos os carboidratos da dieta e come-se apenas gordura.

Em 1870, caímos na ilusão de que era possível “refinar” plantas até extrair delas o bem absoluto, apenas para nos convencermos décadas depois de que tínhamos criado o mal absoluto. Mas será que o problema não é essa mania humana de separar as coisas entre “O Bem” e “O Mal” em vez de entender que o mundo é mais complexo que isso e que há bem e mal em cada coisa? Trigo, cana e coca, se mastigados inteiros – integrais – são nutritivos e inofensivos e protegem contra doenças crônicas. Precisamos parar de tentar “refinar” a natureza e entender que ela é melhor integral.

Por Denis Russo Burgierman

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{ 37 comments }

Marcela Sansone October 6, 2009 at 19:19

Nossa, que matéria boa e bem escrita! Sou nutricionista e adorei ver as comparações que você fez entre esses produtos refinados. Eu concordo com tudo o que foi dito. Realmente, para que comemos tanta coisa industrializada, refinada, se podemos nos alimentar com os alimentos in natura, com todos seus nutrientes e sua vida? Se eles não existissem imagina quantas pessoas estariam mais saudáveis e com menos doenças crônicas.

(Adoro seu site!!)

beijos

Tatiana Tardioli October 7, 2009 at 0:10

Impressionante!
Belo texto.
Fiquei pensando no sal… onde ele entra nessa história?
bjs,
Tatiana.

Pat Feldman October 7, 2009 at 6:45

Tatiana, muito bem lembrado!!!

O sal é mais um alimento que foi refinado, reduzido e piorado. O sal não refinado é excelente fonte de mineirais impostantíssimos para a nossa saúde, porém depois de refinado vira puro sódio, que ganhar a adição de iodo inorgânico, forma diferente de iodo encontrada na natureza e nãoo tão bem aproveitada pelo nosso organismo.

priscila November 21, 2016 at 21:50

É por isso q devemos consumir o sal marinho INTEGRAL, este sim um composto mineral complexo e necessário bem como benéfico a nossa saúde. Há diversas comprovações cientificas mal divulgadas na área, o sal em si não é veneno, ao contrario , é necessário para nossa saúde plena.

Liana October 7, 2009 at 7:50

O livro mencionado é realmente muito bom, vale a pena ler!
Eu quando faço dieta (infelizmente as vezes preciso) sigo a de South Beach, onde o autor prega uma alimentação baseada em legumes, verduras, leguminosas e grãos, além de iogurte e gorduras “boas” insaturadas ou mono. Quanto menos pré-processado alimento, ele diz, mais nosso proprio corpo terá que trabalhar pra chegar aos nutrientes, e isso é bom! -Me lembrei disso porque numa parte do livro South Beach ele fala que comer pão branco puro é como beber de estomago vazio. Devemos dar preferencia ao pão integral e colocar um fiozinho de azeite…
A “modernidade” nos trouxe uma impaciência que exige que tudo seja “instantaneo” “rápido” “prático”. Há um alto preço, nem sempre obvio, a ser pago por isso…

Daniela October 7, 2009 at 12:04

Pat,
Parabens por trazer um pouco de luz a essa escuridao em que vivemos. Eu nao moro no Brasil ha 6 anos e quando volto (todos os anos) vejo quanta informacao nova ainda nao esta nas manchetes. Minha mae veio em casa o mes passado e ficou indignada pelo fato que eu nao dou leite a minha filha de quase 2 anos e a deixo comer um monte de pepino e pimentao cru (ela acha indigesto hehehe). A Inglaterra esta na batalha contra obesidade infantil, o governo esta estimulando a pratica de exercicios e introduzindo campanhas como a “5 a day” onde deve-se comer pelo menos 5 porcoes de vegetais/legumes/frutas diariamente. Sem contar o estimulo ao consumo de alimentos integrais e frescos e gorduras essenciais. Propagandas na TV, folhetos, centros comunitarios, todos envolvidos, esportes gratuitos para menores de 16 anos, etc…

Eu adoro a Annabel Karmel, vc deve conhecer. Eu combino as dicas dela com a manutencao do Atkins na dieta da minha familia, a qual consiste em consumir alimentos integrais e frescos, com o minimo processamento possivel, sem aditivos, derivados do leite cru e gorduras essencias. Minha filha tem quase 2 anos, nunca foi no medico ate 1 ano e 4 meses (quando descobrimos que ela tem um asma leve, herdada do pai). Depois disso nunca mais, nunca tomou antibiotico. Prefere pepino ao chocolate :-))) Farinha de trigo branca nao entra em casa! Nem junk food.

Ja aderi ao oleo de coco, dica sua!!! Nunca mais fiquei doente, nunca mais tive dor de cabeca, desde que adotei esse estilo de vida, back in 2006.

Parabens pelo trabalho, um grande abraco,
Daniela Allen

Pat Feldman October 7, 2009 at 12:52

Daniela, obrigada pelo carinho! Seja sempre muito bem vinda ao Crianças na Cozinha!

Leticia October 7, 2009 at 12:42

Pat, eu amei o texto ! É perfeito !
Muito bom mesmo, obrigada por divulgar. Vou passar adiante também.

Diva Moraes Falcão October 7, 2009 at 12:50

Pat,

Excelente artigo sõbre os três “vilões” da nossa alimentação. O sal, outro “vilão”, muito bem lembrado pela Tatiana.

Esse artigo é de utilidade pública.Vou divulgá-lo para a toda a família e amigos.

Grata. Diva Falcão.

Melissa Verli October 7, 2009 at 13:58

Texto fantástico!!! Adorei. E tb concordo que faltou o sal.

Luana Arnhold October 7, 2009 at 14:33

Pat! Os pessegos organicos estao maravilhosos só que eu nao tenho receitas! Vc tem sugestoes?
Beijos!

Fausto October 7, 2009 at 16:42

Nossa, esse texto é muito bom! Bem objetivo, mostra claramente o porquê de não podermos nos alimentar com estas coisas.

simone October 8, 2009 at 11:46

e o açucar mascavo? já reparei que vc costuma recomendar rapadura ralada.. não seriam ambos a mesma coisa? beijos e obrigada por todas essas informações incríveis!

Pat Feldman October 8, 2009 at 13:35

Simone, dá uma lida aqui: http://pat.feldman.com.br/?p=6218

Leticia October 14, 2009 at 16:34

Pat, é o açucar cristal? Tem uns bem escurinhos …. o que sabe sobre eles? É a mesma coisa que açucar refinado?

Sobre o açucar mascavo, então o melhor é aquele grudento. Se estiver soltinho no pacote é esta enganação?

Beijos e parabéns pelo belo trabalho informativo!

Pat Feldman October 14, 2009 at 16:39

Letícia, qualquer açúcar brancoé ruim, péssimo! Tem alguns mais escurinhos, mas que é só para enganar os desavisados, porcaria igualzinho! E aí nem importa se é orgânico ou não, viu!

Se o açúcar mascavo estiversoltinho na embalagem ,temuma boa chance de ser enganação…

Difícil, né?

Leticia October 15, 2009 at 16:55

Poxa …. bem difícil! Rs

Estou entrando neste mundo informativo de alimentação agora e confesso…. bem assustada!

Candonga July 3, 2011 at 13:28

A matéria é de vital importância para todos nós.
Particulaemente, agradeço pelas importantes e oportunas informações.

FLUVIA September 14, 2012 at 9:11

Olá! Sou engenheira de Alimentos e leitora do deu site. Realmente é isso que o processamento/refinamento faz com os grãos, um linchamento, ou seja, sua total destruição. A tecnologia de alimentos “nutre” e adoce cada vez mais a população. É lamentável, pois nem todos tem acesso à alimentos integrais e orgânicos! Já que essas “drogas” que a indústria chama de produtos alimentícios não passam de energia vazia e barata.

flaviane April 18, 2013 at 15:32

eu adoro este site…
dispensa comentários o artigo..

parabéns e beijo a vc Pat e todos os leitores

Juliana Mengarda January 13, 2015 at 12:17

Oi Pat,
Mas o trigo integral que comemos hoje, não é vilão também?
Pelo o que li no livro Barriga de Trigo, nem o integral se salva… já que foi geneticamente modificado e contribui para os processos inflamatórios no organismo pelo excesso de glúten e alto índice glicêmico.
Bjs

Pat Feldman January 13, 2015 at 21:46

Juliana, você tem razão!! Eu li o Barriga de Trigo e ando querendo falar sobre ele aqui no site. Cortei praticamente 100% do trigo da minha dieta e venho me sentindo muito melhor!

rita January 14, 2015 at 23:38

Falta o sal… Branco e claro refinado também.

Ariane January 15, 2015 at 19:51

Nossa! Fantástico esse texto!!!
Adorei o final!
Perfeito!

Eli January 17, 2015 at 17:50

Muito bom!!!!! Parabéns pela clareza do texto!

Tainá January 19, 2015 at 20:38

Sabem por que farinha e açúcar não estragam? Porque são secos! Coloquem em uma quantidade adequada de água e verão que em pouco tempo começa o processo de fermentação. O mel, apesar de conter muitos nutrientes, também não estraga por causa da alta concentração, que tem um efeito osmótico inibitório sobre os microrganismos, Mas se diluir o mel em um pouco de água, aí sim ele estraga.

lafayette mendes da fonseca January 21, 2015 at 22:52

Falta ao mundo a pratica simples de alimentar-se para sobreviver. E não comer para que tenhamos vontade de fazê-lo mais vezes. Quem afinal lucra com toda essa nossa industria do refino? E os laboratórios farmacêuticos que nos impingem a cura que os mesmos participaram em produzir o mal. Tudo isso é o capitalismo sem escrúpulos.

Peri Pertile January 22, 2015 at 7:32

Muito bom! Só faltou o quarto pó branco refinado maligno: o sal!

Danilo Martins January 26, 2015 at 16:30

Excelente texto. Simples e direto.

Marilene de Oliveira January 27, 2015 at 16:44

Adorei a Matéria, sou Enfermeira, tenho 54 anos e vejo que o que me salvou de uma geração de mulheres Obesas foi um pseudo Distúrbio Alimentar (manha) que tive na Infância, como na época não havia Anorexia nem Bulimia cresci e fiquei rotulada de chata para comer e enfim sobrevivi com manequim 40 em 1.58 até hoje quando entro na Menopausa e tudo esta se confundindo no Sistema. Então como não tenho Hábitos de comer nada, nada mesmo estou em busca de construir uma alimentação e o que gosto: brócolis, cenoura, tomate, não gosto muito de carnes nem peixe estou quase me identificando com Veganos, não gosto de farinhas e derivado, gosto de Yogurtes, queijos, mas vou enviar suas dicas para meus pais de 80 anos e minha irmã que tem uma menina de 8 anos e que busca uma alimentação saudável para sua filha e concordo que tudo que o homem coloca a mão e modifica na ordem natural precisa ser muito bem analisado antes de dizer que é a melhor opção.

Mitra Daysli Devi Dasi January 27, 2015 at 21:27

Há tempos que não leio uma matéria tão fácil de ser compreendida. Os malefícios são devastadores. Antes ainda caía em tentação. Basta!

Gabrielle January 28, 2015 at 23:00

Ótimo texto. Obrigada!

Ismael Costa February 1, 2015 at 22:32

Estou lendo o melhor livro de todos os tempos! A DIETA DA MENTE DR.DAVID PERLMUTTER a surpreendente verdade SOBRE O GLÚTEM e os carboidratos-os assassinos silenciosos do seu cérebro. Com diversos assuntos importantes para nossa saúde no site.Este Dr.Tem 30 anos de pesquisa sobre o assunto.É referência mundial!
http://www.drperlmutter.com/eat/list-of-gluten-free-foods/

Pat Feldman February 2, 2015 at 8:52

O livro é realmente muito bom, Ismael!

genecy gava February 2, 2015 at 21:22

Excelente , pena q a grande maioria continue a ignorar essa verdade tão obvia.

Carlos November 3, 2015 at 14:24

Todo o “alimento” refinado faz mal à saúde. Simples!

Valquiria January 4, 2016 at 9:35

Já havia notado, que nos ENVENENAMOS, ao inves de nos alimentarmos. Mas esse texto so corroborou para a certeza. Como fugir disso… Praticamente todo os alimentos acessíveis, economicamente, tem esses dois venenos na composição? Farinha e açúcar.

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