Bancada colorida de feira livre com comida de verdade fresca, representando a educação alimentar infantil em sua essência.
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Educação alimentar infantil começa na feira

A educação alimentar infantil não começa na receita, nem no livro, nem no e-book.

Ela começa muito antes — no reconhecimento da comida.

Vivemos hoje num cenário em que grande parte das pessoas se alimenta majoritariamente de produtos ultraprocessados. A oferta é enorme, o preço costuma ser mais baixo e a praticidade pesa na rotina real das famílias. Isso não é descuido: é o sistema alimentar que se impôs ao longo dos anos.

E muitos pais, inclusive, nunca tiveram o hábito de frequentar uma feira. Durante muito tempo, isso foi visto como algo “menor”, tarefa delegada a funcionários ou carregada de um preconceito bobo — como se comida de verdade tivesse classe social. Não tem. Comida de verdade é comida.

Por que tantas crianças não reconhecem a comida?

Nesse contexto, muitas crianças simplesmente não reconhecem mais os alimentos. Não sabem que forma têm, de onde vêm, como nascem. E isso vai muito além de não saber cozinhar — é não saber identificar.

Eu até entendo quando alguém confunde salsinha com coentro, ou um tipo de folha com outro. Mas acho grave, gravíssimo, uma criança olhar para uma berinjela, uma abobrinha ou uma mandioquinha e não ter a menor ideia do que seja aquilo.

Seu filho não precisa gostar de tudo.

Mas precisa conhecer a comida.

Esse contato não deve acontecer em tom de aula, sermão ou obrigação. A feira não é sala de aula — é passeio.

Caminhar sem pressa, observar as cores, sentir os cheiros, ouvir os sons, conversar. Quando vira cobrança, o efeito é o oposto: afasta em vez de aproximar.

Levar crianças à feira é oferecer uma experiência sensorial riquíssima. Mesmo bebês, que ainda não entendem nomes ou explicações, enxergam cores, sentem perfumes, criam familiaridade. O alimento passa a fazer parte do mundo deles.

A feira como passeio, não como sala de aula

Não é preciso ensinar tudo.

Nem explicar tudo.

Nem transformar o momento em obrigação.

A feira funciona quando é leve. Quando é curiosidade. Quando é prazer.

É assim que o vínculo com a comida nasce.

O dia em que o quiabo entrou na nossa história

Meus filhos começaram a ir à feira comigo desde muito pequenos. E foi ali que vivi uma das histórias mais divertidas da maternidade.

Meu filho mais velho, ainda no carrinho, adorava quando eu apontava os alimentos e dizia seus nomes. Até o dia em que chegamos no quiabo. Ele achou aquele nome a coisa mais engraçada do mundo e repetia, gargalhando: “queabo, queabo, queabo”.

Eu nunca tinha comido quiabo na vida — herdei um trauma alimentar da minha mãe — e jamais comprava. Até o dia em que ele chorou pedindo: “compra queabo”.

Comprei.

As primeiras tentativas foram um fracasso. Baba, gosto estranho, aparência pouco convidativa. Quase desisti. Mas toda semana ele pedia mais “queabo”.

Até que resolvi fazer do meu jeito: refoguei o quiabo bem fininho com carne moída. Ficou perfumado, saboroso, e ele comeu com tanto prazer que eu resolvi experimentar também. E adorei.

Educação alimentar infantil fica para a vida inteira

Hoje esse mesmo menino tem 20 anos.

Passou dois anos morando sozinho, longe de casa, com orçamento apertado e vida de estudante. E, mesmo assim, baseou sua alimentação em comida de verdade.

Comeu besteiras? Claro.

Mas como exceção — nunca como regra.

Isso não veio de uma dieta.

Veio de repertório.

Conhecer a comida desde cedo é um presente para a vida inteira. A criança aprende a reconhecer ingredientes, a frequentar lugares onde se vende alimento fresco, a montar refeições do zero — e leva isso consigo para a vida adulta.

Por isso eu digo: sempre que puder, troque o supermercado pela feira. Leve seus filhos junto. Sem pressa, sem obrigação, sem discurso.

É um momento simples, vivido em família — e o primeiro passo real da comida de verdade.

Essa é a “etapa zero” da Jornada da Comida de Verdade: o primeiro contato, o reconhecimento, o começo de tudo. Nunca é tarde para começar.

Quem é a Pat FeldmanPat Feldman

Pat Feldman é culinarista, criadora do Projeto Crianças na Cozinha (www.criancasnacozinha.com.br), que visa difundir para o grande público receitas infantis saudáveis, saborosas e livre de industrializados. É também autora do livro de receitas A Dor de Cabeça Morre Pela Boca, escrito em parceria com seu marido, o renomado médico Alexandre Feldman.