Tenho pensado muito sobre o conceito atual de bem-estar — ou wellness, como o mercado gosta de chamar.
Hora do bem estar
Hoje, quando se fala nesse assunto, quase sempre o discurso vem acompanhado de suplementos caros, academias impecáveis, rotinas extremamente controladas e corpos magros, sempre produtivos, sempre dispostos. Existe hora pra tudo: acordar, dormir, trabalhar, treinar, comer, jejuar, relaxar, beber água.
Tudo cronometrado. Eternamente monitorado. Tudo impecável.
Junto disso, surge uma mensagem silenciosa — mas muito poderosa: é proibido adoecer, é proibido engordar, é proibido envelhecer, é proibido cansar, é proibido falhar.
Confesso que isso tem me incomodado bastante.
Eu trabalho com alimentação saudável e, por isso mesmo, me sinto frequentemente cobrada. Existe uma expectativa quase automática de que quem fala sobre saúde precise ter um determinado corpo. Como se a estética fosse a prova final de que algo funciona.
Mas meu corpo não é padrão.
E, sinceramente, nem a minha saúde é.
Porque o padrão de saúde que anda sendo vendido hoje está muito abaixo do que eu considero realmente saudável.
Nunca fui magra — pelo menos não sem um nível de sacrifício que, pra mim, não faz sentido. Ainda assim, meus exames estão ótimos, minha saúde está em dia, tenho energia, durmo bem e trabalho com prazer.
Isso não aparece no espelho, mas aparece na vida.
As pessoas comentam com frequência o quanto eu vivo de bom humor — e, parando pra pensar, é verdade: é difícil eu ficar brava.
(Embora, quando fico… aí é pra valer!)
Talvez isso também diga alguma coisa sobre saúde, ainda que não exista exame de sangue capaz de medir leveza, disposição ou prazer em viver.
E antes que alguém entenda errado, é importante deixar claro:
Eu sou totalmente a favor do wellness.
Eu me cuido. Cuido do que como, do que penso, de como durmo, de quanto me movimento. Gosto de rotina — ela organiza o dia, traz estrutura e ajuda muito no dia a dia.
O problema não é o cuidado.
O problema é quando o cuidado vira neurose.
Quando tudo precisa ser perfeito. E qualquer desvio vira culpa. Quando comer, descansar ou simplesmente viver passa a gerar mais ansiedade do que bem-estar.
Saúde, pra mim, nunca foi sobre rigidez.
Sempre foi sobre constância possível.
Sobre fazer boas escolhas na maior parte do tempo — e não viver sob vigilância o tempo todo.
Meu corpo não é padrão.
E, sinceramente, ainda bem.
Porque o corpo perfeito do feed muitas vezes esconde uma relação adoecida com comida, com o tempo e consigo mesmo.
Também não acredito que saúde precise vir acompanhada de sofrimento.
Ou de um eterno “agora vai”.
A vida já cobra demais da gente.
Cuidar do corpo deveria ser apoio — não mais um campo de batalha.
Talvez por isso eu funcione melhor assim: com um pouco de cuidado em tudo, sem radicalismos, sem terrorismo nutricional, sem viver em guerra comigo mesma.
E, sim, eu tenho minhas manias. A principal delas é a pontualidade — sou rigorosa mesmo. Mas aí veio meu marido… e bagunçou tudo. Porque, no fim das contas, a vida também precisa de algum descontrole pra continuar leve.
Hoje, o que eu busco é bem-estar de verdade.
Aquele que sustenta o dia.
Que permite trabalhar, cozinhar, pensar, rir, conviver.
Um bem-estar que não aparece só no corpo — aparece no jeito de viver.
E isso, pra mim, vale muito mais do que caber em qualquer padrão.

