Mesa farta com variedade de alimentos de verdade, para comer bem
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Tudo o que você pode comer para comer bem

Outro dia, meu marido me contou uma cena que se repete no consultório. Quando ele orienta um paciente a evitar pão e outros alimentos feitos com farinha, como bolos, tortas e massas, é comum ouvir uma reação quase desesperada:

“Mas, doutor, o que é que eu vou comer então????”

Eu acho essa pergunta muito reveladora. E fico pensando: será que estamos ensinando as pessoas a comer bem ou apenas ensinando o que elas não devem comer?

Comer bem não deveria ser uma lista de proibições. Não pode ser, porque parte de comer bem é ter prazer ao comer. Os critérios que usamos para cuidar da alimentação não deveriam roubar esse prazer.

Depois de mais de 20 anos trabalhando, estudando e experimentando comida de verdade, uma coisa ficou cada vez mais clara para mim: quando mudamos a maneira de olhar para a alimentação, descobrimos possibilidades que antes nem imaginávamos.

Em vez de olhar apenas para o que saiu do prato, que tal prestar mais atenção em tudo o que pode entrar nele?

E se o pão não estiver no cardápio?

Eu adoro pão. Daquelas pessoas que poderiam comer pão em todas as refeições, sem reclamar. Mas isso não significa que eu precise comer pão todos os dias, muito menos em todas as refeições.

E também não significa que todo pão seja igual.

Existe uma diferença enorme entre um pão industrializado, cheio de ingredientes que não fazem parte de uma receita tradicional, e um pão feito com bons ingredientes, farinha de qualidade e fermentação natural. O nome é o mesmo, mas a história é outra.

Se por algum motivo você precisa ou escolhe não comer pão, não acho que a primeira pergunta deva ser: “Como faço para encontrar um pão que substitua o pão?”

Talvez seja mais interessante perguntar: “O que mais eu gosto de comer no café da manhã?”

Ovos preparados de diferentes maneiras, iogurte com ou sem frutas, queijos, tomate, pepino… Há tantas possibilidades! Não precisamos transformar todos os alimentos de que gostamos em versões alternativas de alguma coisa que deixamos de comer.

E, claro, há situações em que a restrição é indispensável. Quem tem doença celíaca, por exemplo, precisa excluir o glúten rigorosamente. Não estou sugerindo que alguém ignore uma orientação médica ou uma necessidade alimentar. Estou dizendo que, mesmo diante de uma restrição, ainda existe um mundo de possibilidades deliciosas para descobrir.

Eu não queria deixar de comer linguiça

Essa história começou quando meu marido, que na época estava estudando cada vez mais sobre alimentação, me disse que não poderíamos continuar comendo linguiça.

Eu fiquei inconformada! Adoro linguiça e tenho lembranças deliciosas do meu avô preparando linguicinhas para os netos nos churrascos das férias e dos feriados em família. Era uma alegria!

Meu marido, então, me deu uma máquina de fazer linguiça. E sabem o que eu fiz? Deixei a máquina dentro da caixa por SEIS MESES! Achava que fazer linguiça em casa seria complicado demais.

Até que um dia resolvi experimentar. A primeira leva não ficou lá essas coisas, mas fui aprendendo, testando, melhorando. Hoje tenho uma máquina bem mais potente e acho o preparo relativamente fácil, embora dê trabalho.

O que eu queria era continuar comendo linguiça! Não estava procurando uma versão alternativa, uma imitação ou alguma coisa que tentasse substituir o que eu gostava. Queria fazer uma linguiça de verdade, com carne de qualidade, temperos naturais e sem aditivos.

E foi assim que a linguiça voltou para a minha vida, agora feita por mim.

Isso não significa que toda linguiça caseira seja automaticamente boa, nem que todas as linguiças comerciais sejam iguais. Uma coisa é uma linguiça preparada com bons ingredientes e outra é um produto industrializado com uma longa lista de aditivos. O nome é o mesmo, mas o conteúdo pode ser muito diferente.

O nome do alimento, sozinho, não conta toda a história.

Para comer bem, nem tudo precisa ser feito em casa

Eu gosto de cozinhar. Gosto de pesquisar, testar receitas, descobrir ingredientes e aprender processos. Mas não acho que todo mundo precise fazer tudo em casa.

Aliás, fazer em casa não é garantia de qualidade. É preciso saber escolher os ingredientes e entender o que estamos fazendo. Caso contrário, podemos ter muito trabalho e pouco resultado.

Para quem não gosta de cozinhar, não tem tempo ou simplesmente prefere dedicar sua energia a outras coisas, existe outro caminho: procurar bons produtores, pessoas que façam bem aquilo que você gosta de comer.

É verdade que produtos artesanais de qualidade costumam custar mais. Eu mesma, quando encontro algo muito bom, às vezes compro com menos frequência porque sei que vale o investimento. Em outras ocasiões, tento aprender a fazer em casa, pelo prazer do desafio. Nem sempre compensa, e tudo bem.

Também não é preciso gastar muito para comer bem. Ovos, arroz, feijão, verduras e legumes da estação são ótimos exemplos de alimentos que podem compor uma alimentação de verdade sem exigir ingredientes caros ou sofisticados.

O segredo está em aprender a procurar, escolher e valorizar o que é bom.

Será que estamos olhando para os alimentos certos?

Pense no peixe, por exemplo.

O salmão ganhou um espaço enorme na alimentação e no imaginário de quem busca uma comida saudável. Mas sardinhas e tainhas também são excelentes opções e fornecem ômega-3. São peixes que merecem muito mais atenção, inclusive por serem frequentemente mais acessíveis.

Não estou dizendo que ninguém deve comer salmão (se bem que os de cativeiro…. melhor não!). Gosto de ampliar o olhar, não de trocar uma proibição por outra.

Quando vamos à feira, ao mercado ou conversamos com bons produtores com um pouco mais de curiosidade, descobrimos alimentos e possibilidades que a publicidade nem sempre coloca em evidência.

Aliás, essa curiosidade me acompanha há muitos anos. Uma das minhas buscas mais antigas é por um peru de Natal verdadeiramente sadio, criado solto, ciscando, com uma vida diferente daquela dos perus convencionais de criação industrial. Já escrevi sobre essa procura há bastante tempo e, depois de tantos anos, ela continua: Peru de Natal: eu quero um peru sadio!.

Às vezes, encontrar o que procuramos dá trabalho. Mas vale a pena aprender a procurar.

E quando existe uma restrição de verdade?

É claro que há pessoas que precisam excluir determinados alimentos por questões de saúde, alergias, intolerâncias ou outras necessidades. Não se trata de ignorar essas condições, muito menos de brincar com a saúde de alguém.

Mas uma restrição não precisa ocupar todos os pensamentos sobre comida.

Uma lista do que não comer pode ser (e é!) útil no começo, especialmente quando precisamos identificar o que está fazendo mal ou o que deve ser evitado. Só não deveria ser o ponto final da conversa.

Depois de entender o que precisa ficar de fora, precisamos descobrir o que pode entrar. E, mais do que isso, o que dá prazer, o que desperta curiosidade, o que dá vontade de preparar e de comer.

Se existe um alimento de que você gosta muito, vale investigar se há uma maneira melhor de prepará-lo, escolher uma versão de melhor qualidade ou encontrar um produtor que faça um bom trabalho. Quando a restrição é absoluta, como no caso de uma alergia ou da doença celíaca, o caminho é outro: descobrir novos alimentos e preparações que tragam satisfação sem colocar a saúde em risco.

A alimentação não precisa virar uma sequência interminável de perdas.

Gosto de dizer que comida de verdade é mais barata que remédio. Não como uma promessa de que comer bem nos livra de doenças ou de que nunca precisaremos de cuidados médicos. É uma maneira de lembrar que investir em bons alimentos, aprender a escolher e cuidar da alimentação é uma forma importante de cuidar de nós mesmos.

E esse cuidado precisa incluir o prazer.

Mais possibilidades de comer bem, menos medo

Não precisamos gostar de tudo. Nem precisamos fazer tudo em casa. Não precisamos seguir todos os caminhos que outras pessoas escolhem.

Ninguém é obrigado a nada.

Mas vale a pena ter curiosidade, pesquisar, experimentar e descobrir.

Porque uma alimentação mais leve não é necessariamente aquela com menos alimentos ou menos possibilidades. É aquela em que sabemos fazer boas escolhas sem perder a alegria de comer.

E, da próxima vez que alguém lhe disser que você não pode comer alguma coisa, antes de pensar em tudo o que perdeu, experimente fazer outra pergunta:

O que mais eu posso comer?

Você pode se surpreender com a quantidade de respostas deliciosas que vai encontrar.

Afinal, será que estamos ensinando as pessoas a comer bem ou apenas ensinando o que elas não devem comer?

Quem é a Pat FeldmanPat Feldman

Pat Feldman é culinarista, criadora do Projeto Crianças na Cozinha (www.criancasnacozinha.com.br), que visa difundir para o grande público receitas infantis saudáveis, saborosas e livre de industrializados. É também autora do livro de receitas A Dor de Cabeça Morre Pela Boca, escrito em parceria com seu marido, o renomado médico Alexandre Feldman.