Pat Feldman na sua cozinha
Alimentação ARTIGOS Aulas de Culinária Dicas de Cozinha MAIS...

Eu não planejei uma carreira na comida. Ela foi acontecendo.

Há algum tempo, tive uma conversa com um grupo de alunas — algumas delas acabam se tornando amigas e mantenho contato com muitas mesmo depois que o pacote de aulas acaba — sobre as diferentes coisas que faço relacionadas à comida.

A conversa ficou na minha cabeça, porque percebi que talvez eu não conte muito sobre tudo o que faço. Não por estratégia. E muito menos porque queira esconder meus serviços.

É que eu não sou muito de ficar apresentando uma lista de tudo o que posso fazer e esperando que alguém escolha uma opção. Prefiro o caminho inverso.

Primeiro quero entender qual é a necessidade. Depois penso em como posso ajudar.

E foi assim que, ao longo dos anos, meu trabalho foi crescendo.

Eu não sentei um dia para criar um catálogo de produtos e depois sair procurando pessoas para comprar cada um deles.

As coisas foram aparecendo conforme as pessoas me procuravam com problemas diferentes relacionados à comida — e eu percebia que sabia resolver aqueles problemas.

Depois de tantos anos, algumas dessas soluções ganharam nome, formato e valor.

Continuam sendo produtos, evidentemente, mas nasceram de necessidades reais, e não de uma tentativa de criar alguma coisa simplesmente porque parecia vendável.

Depois daquela conversa com as alunas, resolvi fazer uma coisa que eu mesma nunca tinha feito direito: parar e listar tudo o que efetivamente ofereço.

Quase deu um nó na minha cabeça. Tem muita coisa. Fiquei até cansada. 

E, pensando bem, essa lista conta um pouco da minha história profissional na comida.

Eu nem comecei minha vida profissional na cozinha

Minha formação não tem absolutamente nada a ver com gastronomia. Sou engenheira têxtil.

Cozinhar sempre foi meu hobby, desde muito nova. Eu gostava de estar na cozinha, de experimentar, de entender como as coisas funcionavam, de fazer comida para as pessoas.

Em algum momento, porém, a comida foi ocupando um espaço cada vez maior na minha vida. Comecei a ensinar.

Depois vieram outras pessoas querendo aprender. Vieram pedidos de ajuda, cardápios, livros, eventos. Também vieram pessoas querendo que eu ensinasse quem cozinhava em suas casas.

E, quando percebi, cozinhar tinha deixado de ser apenas uma coisa que eu amava fazer e tinha virado (também) meu trabalho.

Não foi uma mudança planejada como quem escolhe uma nova carreira, escreve um plano de negócios e começa a executar. Foi acontecendo. Uma necessidade de cada vez. Uma solução de cada vez.

Aulas de culinária

Uma das coisas que mais faço é dar aulas de culinária.

Mas não existe uma aula igual à outra porque não existe uma cozinha igual à outra. Mesmo que a mesma receita apareça em aulas diferentes, a aula nunca será a mesma.

Porque a pessoa é outra. A cozinha é outra. A rotina é outra. E a necessidade é outra.

Pode ser alguém que nunca cozinhou, ou alguém que já cozinha bastante, mas está cansada de fazer sempre as mesmas coisas. Também pode ser alguém que quer aprender uma técnica específica. Ou pode ser alguém que quer cozinhar melhor para a própria família. Pode ser alguém que quer reduzir bastante o uso de produtos industrializados. Pode ser alguém que simplesmente quer entender melhor o que está fazendo na cozinha.

Eu não preciso que você cozinhe como eu.

Preciso descobrir o que funciona para você.

Essa frase resume bastante do meu trabalho.

Eu não quero transformar todo mundo numa cópia da Pat Feldman na cozinha dela.

Quero ajudar cada pessoa a cozinhar melhor dentro da realidade que tem.

E existe uma coisa que aparece em praticamente tudo o que ensino: evitar ao máximo o uso de produtos industrializados.

Não quero transformar a cozinha em um conjunto de proibições.

Quero que as pessoas saibam escolher, cozinhar, adaptar e decidir.

Comida de verdade precisa caber na vida real.

Quando quem precisa aprender já sabe cozinhar

Às vezes, quem me procura não quer aprender a cozinhar. Quer que quem cozinha na sua casa cozinhe melhor, ou cozinhe diferente, ou atenda às necessidades e restrições daquela família.

E essa situação é mais delicada do que pode parecer.

Quem cozinha profissionalmente na casa de uma família sabe cozinhar. Sabe muita coisa. Tem experiência, repertório e uma maneira própria de trabalhar.

Então uma patroa dizer que gostaria que aquela pessoa fizesse uma aula comigo pode ser recebida de maneiras diferentes. Não porque a funcionária seja grosseira ou não queira aprender. Mas porque ninguém gosta de sentir que estão dizendo que você precisa aprender a fazer aquilo que já faz todos os dias.

Eu entendo isso.

Em algumas situações, já percebi uma certa resistência antes mesmo de começar a ensinar.

Nesses casos, primeiro preciso construir confiança. Preciso deixar claro que não estou ali para dizer que aquela pessoa não sabe cozinhar, muito menos para julgar o trabalho dela.

Ela sabe cozinhar.

Meu trabalho é acrescentar.

Acrescentar repertório, técnicas, preparações, possibilidades e, principalmente, descobrir junto com ela o que pode funcionar melhor naquela casa.

Às vezes, também preciso lidar com alguns egos feridos. Faz parte.

Mas nunca é sobre substituir o conhecimento de quem já está ali. É sobre somar.

Planejamento de cardápio personalizado

Outro serviço que faço há anos é o planejamento de cardápio personalizado.

E esse é um ótimo exemplo de por que eu não fico oferecendo tudo o que faço para todo mundo.

O nome parece simples: planejamento de cardápio.

Mas, para mim, nunca foi simplesmente montar um cardápio, acrescentar  receitas e fazer uma lista de compras.

Eu preciso entender aquela casa, o que a família gosta de comer, o que não gosta. Quem cozinha. Quanto tempo existe disponível. Como é a rotina. Se há crianças ou se existem restrições ou necessidades específicas. Onde a pessoa mora. O que ela encontra facilmente por lá. E, principalmente, o que é viável.

Porque não adianta montar o cardápio mais maravilhoso do mundo se ninguém naquela casa vai conseguir prepará-lo numa terça-feira às sete da noite.

Tenho um repertório enorme de receitas, combinações, técnicas e soluções acumulado ao longo de muitos anos.

Mas meu trabalho não é simplesmente escolher coisas gostosas. É saber o que funciona naquela realidade. Por isso o planejamento é personalizado.

E é também por isso que prefiro que a pessoa me conte primeiro o que está precisando. Talvez ela realmente precise de um planejamento ou talvez precise de uma aula, ou precise de outra coisa.

Eu gosto de descobrir isso junto com ela.

Uma das minhas aulas favoritas acontece no supermercado

Pouca gente me procura para essa aula, mas quem faz costuma sair encantado.

É uma aula que eu adoro e que, curiosamente, ainda é pouco procurada.

A ideia é simples: eu acompanho a pessoa ao supermercado e ensino a fazer escolhas melhores na prática.

Não é uma aula teórica. É uma aula de compra. É diante da prateleira que as coisas ficam interessantes.

Duas marcas parecem iguais? Vamos comparar.

Um produto tem uma lista de ingredientes simples e outro, aparentemente idêntico, tem uma lista enorme? Vamos olhar.

O que eu escolheria? O que eu deixaria na prateleira? Quando vale pagar mais? Quando não vale? O que parece uma escolha razoável, mas tem uma composição que me faria procurar outra opção?

Eu mostro tudo isso na prática, sempre com o meu olhar de cozinheira e culinarista e com uma preocupação que aparece em praticamente todo o meu trabalho: usar o mínimo possível de produtos industrializados.

E essa aula fica ainda mais interessante quando há crianças. É um ótimo programa para pais e filhos.

Eu não quero ensinar criança que toda guloseima é proibida. Quero que ela aprenda que algumas “besteiras” são menos besteiras do que outras. Que existem escolhas melhores e piores. Que uma guloseima pode aparecer de vez em quando sem que seja necessário transformar comida em uma lista de pecados.

Os pais aprendem. As crianças aprendem. E, de quebra, todo mundo começa a olhar para as prateleiras de outro jeito.

Depois das compras, gosto de fazer uma receita simples com parte do que compramos. Porque escolher bons ingredientes é ótimo. Saber o que fazer com eles é melhor ainda.

A Reforma na Cozinha

Em algum momento, achei que deveria juntar várias dessas coisas em um único programa.

Foi assim que nasceu a Reforma na Cozinha.

A proposta reúne aulas, organização, planejamento, técnicas, receitas, treinamento e várias outras coisas.

Eu queria fazer uma grande transformação.

Só que descobri, na prática, que nem todo mundo quer  ou está preparado para uma reforma.

Às vezes, a pessoa quer resolver uma coisa. Depois talvez descubra outra.

E tudo bem.

Hoje, muitas dessas pequenas “reformas” acontecem naturalmente ao longo das minhas aulas.

Uma pessoa precisa reorganizar a maneira como trabalha na cozinha? Eu ajudo. Precisa aprender preparações básicas? Eu ensino. Precisa melhorar a maneira como quem cozinha em casa trabalha? Faço isso. Precisa aprender a aproveitar melhor os ingredientes? Também.

É uma espécie de reforma, só que mais gradual, sem precisar comprar o pacote “reforma”.

E existe uma regra importante para mim: eu nunca vou tentar convencer alguém de que precisa de mais do que realmente precisa.

Se uma aula resolve, é uma aula. Caso quatro aulas fazem sentido, fazemos quatro. Se depois a pessoa quiser continuar, continuamos.

Eu prefiro que a solução cresça conforme a necessidade da pessoa — e não que a necessidade tenha que caber no pacote que eu inventei.

E então apareceram os eventos

Também faço pequenos eventos. E faço questão de estar pessoalmente neles.

Eu penso o cardápio, preparo a comida, levo tudo, monto tudo e acompanho o evento. Quando necessário, incluo serviço de garçom ou copeira.

Também monto cardápios personalizados para festas. No fim do ano, esse tipo de pedido aparece bastante, mas ele não existe só no fim do ano.

Não tenho interesse em transformar isso numa grande empresa de eventos. Gosto de fazer pequeno. Personalizado. Com a minha presença.

Eu sou a minha equipe inteira.

Talvez um dia eu encontre uma maneira de aumentar a escala de alguma dessas atividades sem perder a personalidade.

Talvez.

Se isso acontecer, ótimo. Mas não tenho nenhuma vontade de crescer simplesmente por crescer. Algumas coisas perdem personalidade quando crescem demais. E eu gosto muito da personalidade do que faço.

E-books: receita é só o começo

Outra parte do meu trabalho são os e-books. São livros de receitas, sim. Mas não são apenas livros para seguir receitas.

Eu quero que, no meio delas, a pessoa aprenda a fazer substituições, aproveitar sobras, transformar uma preparação em outra, entender técnicas e ganhar repertório.

Porque uma receita pode ensinar você a fazer um prato. Repertório ensina você a cozinhar. E esse sempre foi um dos meus objetivos.

E eu também faço comida para você

Além de ensinar, eu cozinho. Tenho meu delivery e faço meus caldos.

Aqui a solução é mais direta. Você não tem tempo ou vontade de cozinhar hoje? Eu cozinhei.

Quer ter bons caldos à mão para usar no dia a dia? Eu faço.

E, mais uma vez, existe um fio condutor: comida de verdade, feita com ingredientes que eu reconheço e com o mínimo possível de industrializados.

Porque esse é um dos princípios que atravessa praticamente tudo o que faço, independentemente do formato.

Então, afinal, o que eu faço?

Depois de escrever tudo isso, entendo por que é difícil responder essa pergunta em uma frase.

E provavelmente ainda existe alguma coisa que não entrou nessa lista, mas, olhando para tudo junto, percebo que existe uma coisa que conecta todas essas atividades.

Eu gosto de resolver problemas relacionados à comida. E gosto de fazer isso de maneira personalizada.

Se o problema é aprender a cozinhar, eu ensino, se é cozinhar de uma maneira diferente, eu adapto.

E se é atender às necessidades de uma família, penso junto.

Se é aprender a comprar melhor, vou ao supermercado.

Precisa organizar a alimentação da semana, planejo.

Se é receber gente em casa, penso no cardápio e faço o evento.

Quer aprender no próprio ritmo, escrevo.

Se é simplesmente não ter tempo para cozinhar, cozinho.

Não foi assim que imaginei minha carreira quando me formei em engenharia têxtil. Aliás, acho que não imaginei carreira nenhuma desse jeito.

Foi acontecendo.

Uma pessoa precisava de uma coisa. Outra precisava de outra.

Eu sabia fazer. Então fiz. E assim, sem perceber muito bem, fui construindo meu trabalho na comida.

Talvez seja por isso que eu não goste muito de “vender produtos”. Eu gosto de oferecer soluções.

E, olhando para essa lista toda, acho que finalmente entendi o que une tudo isso: eu não preciso que você cozinhe como eu. Preciso descobrir o que funciona para você.

Essa talvez seja a melhor definição do meu trabalho.

Quem é a Pat FeldmanPat Feldman

Pat Feldman é culinarista, criadora do Projeto Crianças na Cozinha (www.criancasnacozinha.com.br), que visa difundir para o grande público receitas infantis saudáveis, saborosas e livre de industrializados. É também autora do livro de receitas A Dor de Cabeça Morre Pela Boca, escrito em parceria com seu marido, o renomado médico Alexandre Feldman.